Búfalo ou borboleta?

Búfalo ou borboleta?

fevereiro 17, 2021 0 Por priscilla marques

Oyá é a transformação deificada. Uma mulher que vira búfalo, um búfalo que vira mulher. Ela é o vento, que você não toca, mas te toca. Ela é a curiosidade pelo novo e por isso é também dona de segredos que não eram originalmente seus, como os raios de Xangô e a proteção dos egunguns de Omolu.

Em uma de suas histórias, ela casou-se com Ogum porque ele descobriu seu segredo de búfalo e sequestrou sua segunda pele, mas com ele tinha um acordo: seu segredo não poderia ser revelado. Viveu anos, teve filhos, sempre se perguntando onde estaria sua pele de animal. As outras mulheres de Ogum, enciumadas, o seduziram a lhes contar qual era o segredo de Oyá. Ao descobrir, a zombaram.

“Você não é mulher, é bicho, sua pele está no celeiro.”

Sem fazer alarde, Oyá caçou o que era dela e estava há muito perdido. Encontrou-se novamente, voltou a ser búfalo e matou aquelas que quiseram lhe fazer mal.

Antes de ir embora de vez, reencontrou-se com seus filhos e disse: “estou indo, mas não os abandono: aqui estão meus chifres. Quando precisarem de mim, batam um no outro, e aqui estarei.”

Correu por outros campos, viveu outras histórias, teve outros amores. Descobriu o bom da vida, do amor e da complementaridade com Xangô, o rei de Oyó, casou-se, viveu e lutou ao lado dele.

Em uma época, Xangô estava difícil de lidar. Suas outras esposas, Obá e Oxum, preferiam evitá-lo. Oyá não aguentava se sentir desrespeitada, e batia de frente com seu rei consorte. Mas eram muitos conflitos, muitas brigas, e ela se sentiu cansada. Resolveu então fugir, e foi em busca de seu amigo Exu Bará.

Oyá pediu a Exu que lhe ajudasse em sua peleja, principalmente porque Xangô não demoraria muito a encontrá-la. Exu pediu-lhe que buscasse uma série de ervas na mata e, quando ela voltou, disse que iria transformá-la em uma borboleta. Ela não entendeu, mas aceitou e passou pelo processo. Logo ao terminar, ouviu o som característico de Xangô desbravando as matas. Rapidamente, virou a borboleta vermelha criada por Bará.

Xangô encontrou Exu e lhe perguntou, autoritário: “Onde está Oyá? Sei que são amigos. Ela fugiu e só pode ter vindo se encontrar com você.”

Exu, sufocando uma risadinha, simplesmente respondeu “Não vi Oyá hoje. Pensei que estivesse no palácio. Se fugiu, deve ter ido para outro lado”.

Xangô bufou e não teve opção senão acreditar em Exu. Voltou, então, a caçar a esposa. Ela, por sua vez, esperou que ele estivesse bastante afastado e voltou à sua forma de mulher.

Disse a Exu: “Muito obrigada, amigo. Mas, me responda, de tudo o que existe na natureza, por que me transformar em uma borboleta?”

Exu Bará respondeu: “Você tem a capacidade de se transformar em muitas coisas. Poderia virar o vento, mas, nervosa como está, arrastaria o mundo todo em seu vendaval. Se virasse raio, acabaria com as aldeias. Se fosse fogo, destruiria o mundo todo. Como borboleta, além de se manter com suas cores e perfumes, você pode voar para onde quiser ao sabor do vento, afinal, quem em sã consciência machucaria uma bela borboleta?”

Exu sorriu e foi embora satisfeito, pois havia feito com que Oyá jamais fosse presa de ninguém.

Não existem regras para como lidar com as adversidades da vida. Dependendo do momento, será preciso ser feroz. Às vezes, o que resolve é ser doce.

Oyá se transforma em muitas e dá em cada momento aquilo que o momento pede. Não existem regras pré-definidas de como resolver conflitos. Chifres de búfalo resolvem alguns. Ser borboleta e sair ao vento ajuda em outros.

Não há regra universal de comportamento nem para quem age nem para quem reage; conhecer a natureza, entender o outro e a própria essência é fundamental para entender em que mar você dá pé e em quais outros precisa tomar cuidado.

Humanos (especificamente brancos rs) têm essa mania de teorizar a vida e colocar as resoluções de problemas em caixinhas concebidas pela mente. Mas é só na hora do aperto que você saberá por qual caminho precisa seguir.

Oyá é mulher guerreira que não deita pra outro nenhum. Tem espada e uma pele de búfalo porque vai a luta, mas procurou Exu quando a luta não lhe serviu. Exu, ao invés de ajudá-la a seguir por onde estava indo, lhe apresentou uma outra transformação: uma que a protege dos males e lhe permite caçar seu caminho ao vento.

Conhecer a si mesmo é entender que, se você quer que algo mude, precisa mudar a si próprio.

Oyá é a energia de transformação, muda sua forma de acordo com o que é preciso ser feito.

Nenhuma teoria, por mais bem-intencionada e afrocentrada que seja, consegue comportar o que é, na prática, ser adaptável. E ser adaptável, principalmente em um mundo de constantes mudanças com o mesmo objetivo — explorar nossos corpos e nossa energia —, é fundamental.

Estude muito. Aquilo que não se conhece, pode ser conhecido aprendendo. Seja sankofa, o pássaro que volta para resgatar o que perdeu.

Mas, na hora da luta, esqueça as teorias, arme-se com sua própria natureza.

Você não precisa de movimentos ou nomes bonitos para fazer o que deve ser feito. A lida e a luta irão lhe mostrar o que você precisa.

Búfalo ou borboleta? Os dois, porém depende.